Algo muito estranho são as pessoas, mulheres principalmente, que se chamam por “amigas”. “E aí, Amiga, ‘cê anda sumida?” “Pois é Amiga, nem te conto...” Poucos são os homens que se tratam por “amigos”. Usam outros termos que têm mais ou menos o mesmo valor semântico: bró, mermão, véio... Mas “amigo(a)” é mais coisa de mulher.
Explicitando em palavra ou não, o fato é que as pessoas, homens e mulheres, alegam ter muitos amigos. Centenas no Orkut e em outras redes sociais. Colegas e até meros conhecidos ganham status de “amigos”. Um milhão deles...
Mas além de um “add”, o que faz um amigo?
Afinidade é fundamental. Duas pessoas muito diferentes (e que se dizem tolerantes) podem até ser amigas por um tempo... Até que uma das duas se ache muito próxima e se permita a deliberadamente influenciar, tentando fazer a outra mudar. E até que uma das duas pessoas já não suporte as insinuações e conselhos da outra. Ou até que ambas já não tenham mais nenhuma vontade de falar uma com a outra.
Admiração. Que também tem a ver com afinidade. Ou se admira alguém totalmente diferente da gente? A admiração pode não se consumar na amizade, mas certamente leva a se querer a amizade. Ao menos por um dos lados. Você admira o outro e gostaria de tê-lo como amigo, de sair pra tomar um café e conversar, de saber mais da vida dele, de aprender com... O problema é que quase sempre a admiração não é recíproca, não é? Não no mesmo nível, a ponto de se estabelecer e se manter um vínculo mais forte. E o que é vontade torna-se apenas platônico. E, às vezes, assim já está de bom tamanho.
E doação, talvez. E doação possivelmente motivada pelos dois requisitos anteriores. Doação cria, mas mais que isso, solidifica amizade. Quem te acompanhou na vigília dos velórios dos seus pais, quem que te acompanhou na pior consulta e no pior exame médico. As coisas mais difíceis e também pequenos detalhes. Quem te traz, de surpresa, o prato que você adora. Quem te escreve algo legal sem terceiras intenções.
Mas é tudo via de mão dupla. Amigo não é mãe, pra amar indefinida e incondicionalmente. Sinceramente? Nem (todas as) mães fazem isso (não deviam, ao menos). Amizade se solidifica, mas também se desgasta, enferruja e morre. Quando você deixa de se importar com seus amigos, você não merece mais os caras.
E um dia quando você vir que deu mancada... O que fazer pra consertar as coisas? Como dizer que se sente muito? Como dizer que se reza por, quando nem sequer se sabe rezar? Um telefonema, e-mail, bater na porta, floricultura... o que remedia?
Não sei. E eu queria muito a resposta. Pra ver se deixo de ser amiga tão pouco.
***
PS: Mais que um mea-culpa, isso é um pedido de desculpas à P.
Domingo, 14 de Junho de 2009
Terça-feira, 14 de Abril de 2009
Novelas 0 X 10 Séries (House: 11... Cinema: ?)

Por que as novelas (quase todas, quase sempre) são ruins? Um dos motivos é porque são previsíveis demais. Navegam por meses num mar de previsibilidades. Às vezes, um autor resolve inovar um pouco revelando o assassino no meio da trama e é tido como gênio por isso. Mas e o resto? O texto continua recheado de clichês insuportáveis e intermináveis.
Por que algumas séries são boas? Porque surpreendem. Porque variam em roteiros, direção e texto. Para os especialistas na tal da sétima arte, séries devem ser medíocres... Inferiores (?) ao cinema. Mas são melhores que os folhetins, claro. Séries são doses semanais de imprevisibilidade televisiva.
As mil e uma maluquices de Lost. As mil e umas mulheres de Hank Moody (David Duchovny) em Californication. Os assassinos nunca descobertos em Bones. As reações de Nancy (Mary-Louise Parker) em Weeds. As paródias feitas nos Simpsons. Os olhares e as falas de House; Os doentes inesperados e os casos indecifráveis (até demais) de House.
E por falar em House...
Resolveu surpreender em dobro no episódio 20 (“Uma Simples Justificativa”) desta 5ª temporada.. Além da construção de um caso médico, quando quem deveria morrer, melhora; e quem estava bem, adoece... House – a série, não o personagem – também causa surpresa ao matar alguém da equipe.
Bem, teria sido realmente inesperado se na verdade não fosse uma solução forçada devido a uma necessidade real. O fato é que um dos atores resolveu ir trabalhar para a Casa Branca, então mataram o personagem.
Mas eles podiam ter tentado várias saídas mais fáceis como uma viagem, um novo emprego... No entanto escolheram a morte e ainda por cima o suicídio. Um suicídio sem nenhum alerta prévio, já que o personagem era um dos mais tranquilos e desencanados da equipe. Então por quê?
Porque dessa forma ficou mais imprevisível e, no fim das contas, verossímil sim. De repente, como um aneurisma pode ser uma “surpresa”, um suicídio também. De repente uma pessoa que aparece pra trabalhar na segunda-feira com um sonoro “bom-dia”, pode ter passado o fim-de-semana em casa chorando sem vontade de levantar da cama. Isso existe, eu sei...
Thirteen: “Por volta de 25% dos suicidas não mostram sinais de depressão.”
House: “25% dos suicidas têm amigos que não percebem nada e não querem se sentir culpados.”
Mas como House, o personagem, não aceita não entender tudo, não perceber tudo... Ele tenta a todo custo encontrar um motivo evidente. E não há. A evidência, ao menos, não há.
Taub: “Nem sempre um suicídio é um pedido de ajuda. Às vezes você não quer ajuda.”
O que fica – pelo menos por enquanto, na série – é apenas a incompreensão, como aliás é incompreensível qualquer morte.
House: “Viver triste é menos mau do que morrer disso.”
Um dos melhores episódios da temporada.
***
Em tempo: Outra série “engraçadinha” de se assistir foi United States of Tara, 1ª temporada. Sobre uma mulher com múltiplas personalidades. Com Toni Collette (ótima) e John Corbett (lindo).
Domingo, 22 de Março de 2009
Uma sexta-feira, BR, PRs, 373 km
Primeira curva e a constatação de que algo está realmente errado. A rodovia, o carro... e a ausência de música. Uns 200 quilômetros pela frente com um carro mudo. Só resta, então, o pensamento falante. Mas esse pensamento diz tantas bobagens, imprecisões, conjeturas... Divagações inúteis. Ou seja: conteúdo de valor previsível para se pôr num blog.
A autocrítica e a consciência se turvam. O tempo desnubla. Uma das mágicas da estrada: as mudanças repentinas do tempo. De avião, têm-se as mudanças de estações: decola-se na primavera e pousa-se no inverno. De carro, menos, claro... mas, mesmo assim... em algumas centenas de milhas, digo, quilômetros... podemos ter sol, sombra, chuva, raios, tempestade... E atravessar essa instabilidade ajuda a sujar o carro e botar cor no caminho.
A estrada muda, muda o tempo e a gente tem que mudar rápido também (tem?), inclusive nas decisões de ir ou ficar. Na estrada às vezes se decide parar. Pr’um restaurante, pr’uma foto... pra coisas que surgem e que valem a pena. Desacelera, olha o local, avalia por milésimos de segundos, não pára (sic, sim). Pondera, melhor não. Uns 100 metros à frente, muda de ideia. Anda mais um pouco, sem determinação por parar ou continuar. Roda mais. Decide voltar. Sem retorno, com carros chegando atrás. Continua, então, sem jeito e sem chance. Na estrada, às vezes quando surge um retorno, o tempo já passou do ponto.
Perdem-se oportunidades, mas restam as curvas. As curvas da estrada nas serras, com seu exato e necessário cheiro de verde.
Ruins são as curvas (?) das rotatórias. Rotatórias e suas placas de direção mal posicionadas são uma indução ao erro, a se pegar a saída incorreta e ficar cogitando se tudo não seria um sinal. Não, não um sinal, só um indício... do quanto a falta de música num carro nos faz ficar mais distraídos e confusos nas rotatórias.
A estrada tem rotatórias ruins, curvas cavilosas e pedaços belos. Como quando corta a mata de uma grande fábrica de papel, com suas sombras de milhares de pínus, eucaliptos, outras árvores, e placas de atenção à vida silvestre. O complicado é evitar o atropelamento das borboletas.
A estrada leva ao bairro particular da grande fábrica. Portaria com segurança pedindo identificação, avenida e casas grandes, crianças brincando no meio da rua, escola, delegacia e igreja. Tudo meio perfeito. Mas também meio estranho. Faz lembrar a vila da Iniciativa Dharma, Lost. A personagem Juliet colocando pra tocar o CD em que Petula Clark nos manda ir pra “downtown, onde as luzes brilham mais”.
A estrada tem a volta pra casa quando se avalia se valeu.
***
Ry Cooder toca no telefone. Encosto pra atender. Durante a ligação, garotos em bicicletas chegam no retrovisor, embalados pela ladeira e pelo gosto em perseguir um vira-latas que margeava a pista. O desejo dos três garotos nas bicicletas é, certamente, assustar o cachorro pro meio da rodovia pra vê-lo ser atropelado.
É previsível que de uma forma ou outra o destino desse cão, e de tantos outros que beiram as estradas, é o de ser morto pelos carros. Mas o que espanta é saber que certas pessoas têm prazer em facilitar isso e prazer até em assistir à cena.
O cachorro vê o carro parado e se esconde embaixo. Os garotos e suas bicicletas passam lotados. Desligo o telefone e tenho medo de seguir em frente, de dar a partida e passar com as rodas por cima do pobre bicho. Tenho medo abrir a porta, sair e assustá-lo mais. Pelo retrovisor consigo, enfim, vê-lo ao lado do carro.
É magérrimo e tem tipo um cordão amarrado no pescoço. É possível que esse cordão um dia tenha lhe servido de coleira. Um dia quando ele teve um dono. Um dono que o abandonou ou de quem ele fugiu, por vontade ou descuido. Eu queria levá-lo comigo, mas é claro que não o faço. Não tenho sequer comida para lhe dar. Carrego ração no meu carro, mas este não é meu carro. Não faço nada pra ajudá-lo.
Giro a chave e começo a me mover devagar, me certificando de que ele está longe das rodas. Ele se afasta mais e atravessa pro outro lado da rodovia. Eu sigo meu caminho inválido, certa de minha inutilidade incomensurável.
A autocrítica e a consciência se turvam. O tempo desnubla. Uma das mágicas da estrada: as mudanças repentinas do tempo. De avião, têm-se as mudanças de estações: decola-se na primavera e pousa-se no inverno. De carro, menos, claro... mas, mesmo assim... em algumas centenas de milhas, digo, quilômetros... podemos ter sol, sombra, chuva, raios, tempestade... E atravessar essa instabilidade ajuda a sujar o carro e botar cor no caminho.
A estrada muda, muda o tempo e a gente tem que mudar rápido também (tem?), inclusive nas decisões de ir ou ficar. Na estrada às vezes se decide parar. Pr’um restaurante, pr’uma foto... pra coisas que surgem e que valem a pena. Desacelera, olha o local, avalia por milésimos de segundos, não pára (sic, sim). Pondera, melhor não. Uns 100 metros à frente, muda de ideia. Anda mais um pouco, sem determinação por parar ou continuar. Roda mais. Decide voltar. Sem retorno, com carros chegando atrás. Continua, então, sem jeito e sem chance. Na estrada, às vezes quando surge um retorno, o tempo já passou do ponto.
Perdem-se oportunidades, mas restam as curvas. As curvas da estrada nas serras, com seu exato e necessário cheiro de verde.
Ruins são as curvas (?) das rotatórias. Rotatórias e suas placas de direção mal posicionadas são uma indução ao erro, a se pegar a saída incorreta e ficar cogitando se tudo não seria um sinal. Não, não um sinal, só um indício... do quanto a falta de música num carro nos faz ficar mais distraídos e confusos nas rotatórias.
A estrada tem rotatórias ruins, curvas cavilosas e pedaços belos. Como quando corta a mata de uma grande fábrica de papel, com suas sombras de milhares de pínus, eucaliptos, outras árvores, e placas de atenção à vida silvestre. O complicado é evitar o atropelamento das borboletas.
A estrada leva ao bairro particular da grande fábrica. Portaria com segurança pedindo identificação, avenida e casas grandes, crianças brincando no meio da rua, escola, delegacia e igreja. Tudo meio perfeito. Mas também meio estranho. Faz lembrar a vila da Iniciativa Dharma, Lost. A personagem Juliet colocando pra tocar o CD em que Petula Clark nos manda ir pra “downtown, onde as luzes brilham mais”.
A estrada tem a volta pra casa quando se avalia se valeu.
***
Ry Cooder toca no telefone. Encosto pra atender. Durante a ligação, garotos em bicicletas chegam no retrovisor, embalados pela ladeira e pelo gosto em perseguir um vira-latas que margeava a pista. O desejo dos três garotos nas bicicletas é, certamente, assustar o cachorro pro meio da rodovia pra vê-lo ser atropelado.
É previsível que de uma forma ou outra o destino desse cão, e de tantos outros que beiram as estradas, é o de ser morto pelos carros. Mas o que espanta é saber que certas pessoas têm prazer em facilitar isso e prazer até em assistir à cena.
O cachorro vê o carro parado e se esconde embaixo. Os garotos e suas bicicletas passam lotados. Desligo o telefone e tenho medo de seguir em frente, de dar a partida e passar com as rodas por cima do pobre bicho. Tenho medo abrir a porta, sair e assustá-lo mais. Pelo retrovisor consigo, enfim, vê-lo ao lado do carro.
É magérrimo e tem tipo um cordão amarrado no pescoço. É possível que esse cordão um dia tenha lhe servido de coleira. Um dia quando ele teve um dono. Um dono que o abandonou ou de quem ele fugiu, por vontade ou descuido. Eu queria levá-lo comigo, mas é claro que não o faço. Não tenho sequer comida para lhe dar. Carrego ração no meu carro, mas este não é meu carro. Não faço nada pra ajudá-lo.
Giro a chave e começo a me mover devagar, me certificando de que ele está longe das rodas. Ele se afasta mais e atravessa pro outro lado da rodovia. Eu sigo meu caminho inválido, certa de minha inutilidade incomensurável.
Domingo, 8 de Fevereiro de 2009
Caminho (ingrato) das Índias
A atriz Juliana Paes interpreta uma indiana na atual novela das 9, não é? Uma indiana que fala português, na Índia, e algumas expressões em híndi, não é? Uma indiana que parece ser uma mulher feliz a maior parte do tempo, exceto por questões amorosas. Muitas outras mulheres indianas na novela também parecem felizes e até orgulhosas de seu mundo.
A pergunta que não dá pra deixar de fazer é: como pode uma mulher ser feliz na Índia? Mesmo que essa mulher tenha o rosto e o corpo da Juliana Paes...
Antes de qualquer coisa, a mulher (a menina) não é esperada. As famílias não querem uma filha, querem um garoto. Por uma lógica, em princípio, simples: se for uma menina, a família terá que pagar um dote para que ela se case no futuro; se for um menino, a família receberá o dote.
Parece uma lógica simples em princípio, mas se vista por outros prismas acaba sendo bem ilógica. Por quê?
Primeiro: como o casamento acaba sendo uma transação comercial, quem compra deveria ter certos direitos/poder sobre o bem comprado. Já que é a mulher quem compra o homem, ou: a família da moça que compra o noivo para a filha... Seria natural que a mulher (e as esposas) tivesse(m) mais força na sociedade indiana. Mas não parece ser isso o que acontece.
A mulher é submissa quando solteira e continua submissa quando casada. Talvez até mais. O dote é algo pior do que um valor de negociação para se comprar um marido; é o que é pago para que um homem aceite o fardo que é uma mulher. Podem tentar glamorizar a situação, falar do valor da família indiana... Mas não há como isso ser interessante. No final das contas, a mulher é um fardo.
E é por ser um fardo que as famílias não querem ter meninas e com frequência são feitos abortos seletivos. Se o feto for do sexo masculino, é bem-vindo; feminino, é abortado.
E aí ocorre outra coisa ilógica: com menos meninas nascendo, sobram homens e faltam esposas; pela lei da oferta e da procura, as mulheres deveriam ser mais valorizadas, mas nem assim. A incongruência do dote continua existindo. E as mulheres continuam a ser tratadas como algo desprezível.
Abortadas, mortas quando bebês, obrigadas a casar ainda crianças... E até assassinadas depois de casadas, para que o viúvo possa receber o dote de uma nova esposa.
É claro que não se pode deixar de considerar a pobreza da Índia, que talvez contribua para um isolamento do povo de outras informações e falta de contato com outros modos de vida. Sem informação, contenta-se com uma cultura arcaica e tantas vezes injusta.
Também é certo que a Índia não é o único local onde coisas assim acontecem, onde mulheres são discriminadas de maneira tão ostensiva. A Índia é só um (péssimo) bom exemplo do quanto ainda é difícil ser mulher em pleno século 21, em várias partes do mundo.
E dizem que é preciso respeitar as tradições, a cultura de outros povos. Não sei... Não consigo apenas ter uma visão antropológica de coisas assim e me manter neutra e sem preconceitos.
Chega de tradições que maltratam e até matam mulheres. Deem a essas mulheres (indianas, chinesas, tailandesas, brasileiras...) a informação, a oportunidade e a escolha. Se elas quiserem continuar com a vida que levam... incompreensível, mas que assim seja. Caso contrário, às favas com certas tradições cruéis.
A pergunta que não dá pra deixar de fazer é: como pode uma mulher ser feliz na Índia? Mesmo que essa mulher tenha o rosto e o corpo da Juliana Paes...
Antes de qualquer coisa, a mulher (a menina) não é esperada. As famílias não querem uma filha, querem um garoto. Por uma lógica, em princípio, simples: se for uma menina, a família terá que pagar um dote para que ela se case no futuro; se for um menino, a família receberá o dote.
Parece uma lógica simples em princípio, mas se vista por outros prismas acaba sendo bem ilógica. Por quê?
Primeiro: como o casamento acaba sendo uma transação comercial, quem compra deveria ter certos direitos/poder sobre o bem comprado. Já que é a mulher quem compra o homem, ou: a família da moça que compra o noivo para a filha... Seria natural que a mulher (e as esposas) tivesse(m) mais força na sociedade indiana. Mas não parece ser isso o que acontece.
A mulher é submissa quando solteira e continua submissa quando casada. Talvez até mais. O dote é algo pior do que um valor de negociação para se comprar um marido; é o que é pago para que um homem aceite o fardo que é uma mulher. Podem tentar glamorizar a situação, falar do valor da família indiana... Mas não há como isso ser interessante. No final das contas, a mulher é um fardo.
E é por ser um fardo que as famílias não querem ter meninas e com frequência são feitos abortos seletivos. Se o feto for do sexo masculino, é bem-vindo; feminino, é abortado.
E aí ocorre outra coisa ilógica: com menos meninas nascendo, sobram homens e faltam esposas; pela lei da oferta e da procura, as mulheres deveriam ser mais valorizadas, mas nem assim. A incongruência do dote continua existindo. E as mulheres continuam a ser tratadas como algo desprezível.
Abortadas, mortas quando bebês, obrigadas a casar ainda crianças... E até assassinadas depois de casadas, para que o viúvo possa receber o dote de uma nova esposa.
É claro que não se pode deixar de considerar a pobreza da Índia, que talvez contribua para um isolamento do povo de outras informações e falta de contato com outros modos de vida. Sem informação, contenta-se com uma cultura arcaica e tantas vezes injusta.
Também é certo que a Índia não é o único local onde coisas assim acontecem, onde mulheres são discriminadas de maneira tão ostensiva. A Índia é só um (péssimo) bom exemplo do quanto ainda é difícil ser mulher em pleno século 21, em várias partes do mundo.
E dizem que é preciso respeitar as tradições, a cultura de outros povos. Não sei... Não consigo apenas ter uma visão antropológica de coisas assim e me manter neutra e sem preconceitos.
Chega de tradições que maltratam e até matam mulheres. Deem a essas mulheres (indianas, chinesas, tailandesas, brasileiras...) a informação, a oportunidade e a escolha. Se elas quiserem continuar com a vida que levam... incompreensível, mas que assim seja. Caso contrário, às favas com certas tradições cruéis.
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009
Londrina em PB, melhor?
Fotos em preto-e-branco têm sempre esse indefectível charme. Certeiro, sim, mas não sei até que ponto verdadeiro. As fotos em preto-e-branco disfarçam muita coisa, qual um filtro, escondem de maneira discreta.
Podem não evidenciar a sujeira e a depredação de um espaço urbano por onde passamos todo dia. Ao vivo e a cores, não há o menor encanto, muito ao contrário. Mas, na foto em saturação inversa tudo é menos feio. O PB pode disfarçar o presente e pode até tornar mais belo um passado.
Será que por isso Londrina às vezes parece melhor nos anos do pioneirismo? Será “culpa” de fotógrafos como José Juliani e Carlos Stenders e suas fotos em preto-e-branco?
Pois, na real, qual era? O que havia de realmente bom e bonito naquele tempo?
Clareiras se abrindo, matando a mata. Aqui e ali sobrava uma árvore enorme e solitária. E são tristes demais as árvores sozinhas... Perto delas apenas casas e casas e casas e gente. As moradas dos bichos e dos pássaros vindo abaixo pra dar lugar às moradas das gentes. Os pioneiros, os homens.
Homens que posavam a frente da árvore gigantesca como o caçador frente à caça. Num ou noutro caso, não tem explicação o orgulho. Que conquista justa é essa? Nenhuma. Deveria é haver um mínimo remorso, pesar... mas orgulho? De usar o machado ou a espingarda... e obviamente vencer? Orgulho de quê?
Talvez das casas construídas, as pessoas chegando e podendo começar uma vida em terra nova. O orgulho de ter um chão pra chamar de seu, um chão vermelho de arder, onde plantar, colher e progredir. E enriquecer e deixar herança gorda pros filhos.
E deixar de herança, também, uma cidade desarborizada (e desarvorada). E descaracterizada.

Não adiantava propaganda enaltecedora das qualidades da nova terra. O café, ouro verde, podia crescer maravilhosamente... Mas no bem e no mal nada se comparava ao vermelho desse chão. Ruge esfregado no rosto da louca. No sol, a poeira colorindo qualquer roupa que se quisesse quarar ou secar no varal. Na chuva, a lama derramada forte e traiçoeira. Quem podia com aquilo?

E o preto-e-branco só faz é disfarçar o desespero que aquilo devia ser? Quem tal um tanto de cor pra trazer mais realidade pro nosso passado?

Mas... eu gosto. A geofagia de quando eu era criança cessou, mas deixou marcas. Isso de gostar dessa terra vermelha, do cheiro de chuva nela, e até dessa lama imensa. No final das contas, o passado de Londrina e dessa terra me encanta, em PB ou colorido.
Podem não evidenciar a sujeira e a depredação de um espaço urbano por onde passamos todo dia. Ao vivo e a cores, não há o menor encanto, muito ao contrário. Mas, na foto em saturação inversa tudo é menos feio. O PB pode disfarçar o presente e pode até tornar mais belo um passado.
Será que por isso Londrina às vezes parece melhor nos anos do pioneirismo? Será “culpa” de fotógrafos como José Juliani e Carlos Stenders e suas fotos em preto-e-branco?
Pois, na real, qual era? O que havia de realmente bom e bonito naquele tempo?
Clareiras se abrindo, matando a mata. Aqui e ali sobrava uma árvore enorme e solitária. E são tristes demais as árvores sozinhas... Perto delas apenas casas e casas e casas e gente. As moradas dos bichos e dos pássaros vindo abaixo pra dar lugar às moradas das gentes. Os pioneiros, os homens.
Homens que posavam a frente da árvore gigantesca como o caçador frente à caça. Num ou noutro caso, não tem explicação o orgulho. Que conquista justa é essa? Nenhuma. Deveria é haver um mínimo remorso, pesar... mas orgulho? De usar o machado ou a espingarda... e obviamente vencer? Orgulho de quê?Talvez das casas construídas, as pessoas chegando e podendo começar uma vida em terra nova. O orgulho de ter um chão pra chamar de seu, um chão vermelho de arder, onde plantar, colher e progredir. E enriquecer e deixar herança gorda pros filhos.
E deixar de herança, também, uma cidade desarborizada (e desarvorada). E descaracterizada.

Não adiantava propaganda enaltecedora das qualidades da nova terra. O café, ouro verde, podia crescer maravilhosamente... Mas no bem e no mal nada se comparava ao vermelho desse chão. Ruge esfregado no rosto da louca. No sol, a poeira colorindo qualquer roupa que se quisesse quarar ou secar no varal. Na chuva, a lama derramada forte e traiçoeira. Quem podia com aquilo?

E o preto-e-branco só faz é disfarçar o desespero que aquilo devia ser? Quem tal um tanto de cor pra trazer mais realidade pro nosso passado?

Mas... eu gosto. A geofagia de quando eu era criança cessou, mas deixou marcas. Isso de gostar dessa terra vermelha, do cheiro de chuva nela, e até dessa lama imensa. No final das contas, o passado de Londrina e dessa terra me encanta, em PB ou colorido.
Quinta-feira, 1 de Janeiro de 2009
Retratos
A caixa, numa técnica que chamam craquelê... Um quebra-cabeça montado com as emendas visíveis. Um mapa com suas infinitas divisas. Uma foto feita em pedaços, com raiva, a seguir reajuntados com arrependimento, esperança e cola branca.
A caixa é em craquelê, em cacos. A caixa se abre e expõe outros cacos. Fotos. Do passado.
Há muito tempo. Há tanto que alguns rostos não têm mais nomes nem lembranças. Como olhar janelas dos prédios vizinhos: a curiosidade com o distanciamento. Quem foram, quando viveram, parentes de quem, o que fizeram, sonharam, amaram, foram amados, por quem, quem se lembrou deles por quanto tempo, quem os esqueceu depressa demais?
Fotos anônimas juntas com outras que ainda têm traços de identificação e memória. Mas que já são, sim, cacos.
Lugares visitados em encarnações diversas desta mesma vida, num tempo em que viajar ainda era preciso, quando ainda não nos acomodávamos ao virtual, quando tínhamos menos e nos divertíamos mais, quando holiday ou honey-moon era qualquer fim de semana.
Pessoas passadas.
Eu mesma.
E os outros.
O moço parecendo ator americano dos anos cinquenta. A moça séria, bela... de olhar forte mas que o futuro desconhecido fez o mau favor de fragilizar. A outra mulher, de olhar forte até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na miséria. O amor maior...
Uma caixa de fotos antigas é uma caixa de Pandora em cacos de males personificados. Cada pessoa ainda com vestígios de esperança quando encarava a lente, cada pessoa atingida por ao menos um raio.
A esperança e a vida em poses.
As crianças em cenários falsos, posando pra Primeira Comunhão e pra formatura. As pessoas em roupas falsas, em sorrisos falsos (ou inocentes), em cenários falsos... O artificialismo sempre achou meios de retocar a realidade (o Photoshop só faz isso mais rápido).
O artificialismo perdura, aqui e acolá, e as pessoas se vão, naturalmente ou não. De um jeito ou de outro, todo mundo parte. Ficam nas memórias dos outros e nessas imagens, retocadas ou não. Depois os outros partem também e só restam as imagens. O que essas fotos fazem ainda por aqui?
Passado, há muito tempo. Há tanto e ainda não compreendido nem assimilado por completo. Passado e se deteriorando e sendo esquecido nessas fotos. Sendo esquecido e preterido quando se fecha a caixa e se volta pro presente, que vai se quebrando em cacos e envelhecendo também.
A caixa é em craquelê, em cacos. A caixa se abre e expõe outros cacos. Fotos. Do passado.
Há muito tempo. Há tanto que alguns rostos não têm mais nomes nem lembranças. Como olhar janelas dos prédios vizinhos: a curiosidade com o distanciamento. Quem foram, quando viveram, parentes de quem, o que fizeram, sonharam, amaram, foram amados, por quem, quem se lembrou deles por quanto tempo, quem os esqueceu depressa demais?
Fotos anônimas juntas com outras que ainda têm traços de identificação e memória. Mas que já são, sim, cacos.
Lugares visitados em encarnações diversas desta mesma vida, num tempo em que viajar ainda era preciso, quando ainda não nos acomodávamos ao virtual, quando tínhamos menos e nos divertíamos mais, quando holiday ou honey-moon era qualquer fim de semana.
Pessoas passadas.
Eu mesma.
E os outros.
O moço parecendo ator americano dos anos cinquenta. A moça séria, bela... de olhar forte mas que o futuro desconhecido fez o mau favor de fragilizar. A outra mulher, de olhar forte até o fim, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na pobreza e na miséria. O amor maior...
Uma caixa de fotos antigas é uma caixa de Pandora em cacos de males personificados. Cada pessoa ainda com vestígios de esperança quando encarava a lente, cada pessoa atingida por ao menos um raio.
A esperança e a vida em poses.
As crianças em cenários falsos, posando pra Primeira Comunhão e pra formatura. As pessoas em roupas falsas, em sorrisos falsos (ou inocentes), em cenários falsos... O artificialismo sempre achou meios de retocar a realidade (o Photoshop só faz isso mais rápido).
O artificialismo perdura, aqui e acolá, e as pessoas se vão, naturalmente ou não. De um jeito ou de outro, todo mundo parte. Ficam nas memórias dos outros e nessas imagens, retocadas ou não. Depois os outros partem também e só restam as imagens. O que essas fotos fazem ainda por aqui?
Passado, há muito tempo. Há tanto e ainda não compreendido nem assimilado por completo. Passado e se deteriorando e sendo esquecido nessas fotos. Sendo esquecido e preterido quando se fecha a caixa e se volta pro presente, que vai se quebrando em cacos e envelhecendo também.
Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008
Que tudo se realize...
O deus romano Janus tinha um segundo rosto virado pra trás. Ele era o deus guardião dos portões, que, como se sabe, têm dois lados. Janus guardava o que estava dentro e via o que vinha à frente. Passado e futuro. Janeiro. Dia 1º. Ano Novo. Um passado que finda e um futuro que chega pulando sete ondas e fazendo festa.
Parece que há uma associação: Natal... família; Ano Novo... festa. No Natal é permitida uma certa nostalgia, depressão talvez. No Ano Novo, não, não há motivos pra esses sentimentos. Nostalgia? Já vai tarde o ano que se acabou! Depressão? Nada disso, tudo é champagne e beijos à zero hora.
Réveillon é o galicismo que há séculos se infiltrou como palavra chique no nosso vernáculo e se manteve inalterada. As pessoas podem ainda não saber escrever “réveillon” (o Word que me corrija se eu estiver enganada), mas todos dizem “reveiõ”, ou “reveion”. E todos comemoram o réveillon (menos eu?).
E todos têm esperanças num novo despertar, ou... num novo réveiller, do francês de que a palavra vem. Têm esperanças em dezenas de planos estabelecidos. Se as promessas pra si mesmo vão sendo realística e implacavelmente quebradas ao longo do novo ano, isso não importa no réveillon. Na verdade, numa versão mais pessimista, as promessas e acordos pessoais não resistem nem mesmo ao mês de janeiro... na primeira semana já vai ser tudo bem difícil.
Mas não importa e vale tudo. Até mesmo perder um tanto do senso crítico. Sete ondas, doze uvas e um milhão de fogos de artifícios para enlouquecer os pobres dos cães. Simbólico e belo e digno de crédito só mesmo os velhos japoneses socando o arroz em seus velhos pilões pro preparo do moti. O resto é fugaz, pirotecnia que se desmancha no ar ao fim de doze badaladas.

Parece que há uma associação: Natal... família; Ano Novo... festa. No Natal é permitida uma certa nostalgia, depressão talvez. No Ano Novo, não, não há motivos pra esses sentimentos. Nostalgia? Já vai tarde o ano que se acabou! Depressão? Nada disso, tudo é champagne e beijos à zero hora.
Réveillon é o galicismo que há séculos se infiltrou como palavra chique no nosso vernáculo e se manteve inalterada. As pessoas podem ainda não saber escrever “réveillon” (o Word que me corrija se eu estiver enganada), mas todos dizem “reveiõ”, ou “reveion”. E todos comemoram o réveillon (menos eu?).
E todos têm esperanças num novo despertar, ou... num novo réveiller, do francês de que a palavra vem. Têm esperanças em dezenas de planos estabelecidos. Se as promessas pra si mesmo vão sendo realística e implacavelmente quebradas ao longo do novo ano, isso não importa no réveillon. Na verdade, numa versão mais pessimista, as promessas e acordos pessoais não resistem nem mesmo ao mês de janeiro... na primeira semana já vai ser tudo bem difícil.
Mas não importa e vale tudo. Até mesmo perder um tanto do senso crítico. Sete ondas, doze uvas e um milhão de fogos de artifícios para enlouquecer os pobres dos cães. Simbólico e belo e digno de crédito só mesmo os velhos japoneses socando o arroz em seus velhos pilões pro preparo do moti. O resto é fugaz, pirotecnia que se desmancha no ar ao fim de doze badaladas.

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